segunda-feira, 31 de maio de 2010

sábado, 29 de maio de 2010

quinta-feira, 27 de maio de 2010

videoNeste video, Antonio Quinet, renomado psicanalista e transcriador da peça "Oidipous, filho de Laios", fala sobre a peça que terá sua estréia em São Paulo - Junho 2010 - no Antigo Teatro Fábrica.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

terça-feira, 23 de março de 2010

Para que mentir?

Verdade e mentira em Óidipous, filho de Laios

Vera Valadares


ELE: Pra quê mentir se tu ainda não tens esse dom de saber iludir? Pra quê? Pra quê mentir se não há necessidade de me trair? Pra quê mentir se tu ainda não tens a malícia de toda mulher? Pra que mentir se eu sei... Pra que mentir tanto assim se tu sabes que eu sei ! (Noel Rosa, editado)


ELA: Não me venha falar da malícia de toda mulher. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

Você sabe explicar

Você sabe entender tudo bem

Você está você é, você faz, você quer,

Você tem!

Você diz a verdade, e a verdade é seu dom de iludir!

Como pode querer que a mulher vá viver sem mentir! (Caetano Veloso, na sequência)


Assistindo um debate sobre a peça Oidipous, filho de Laios, de Antonio Quinet, me chamou a atenção o fato relatado por um helenista que, durante anos na universidade ele e seus colegas se perguntaram se a Jocasta sabia ou não sabia... uns se inclinavam para o lado do sim, outros para o não!

Vieram-me então na mente essas duas canções, que talvez não por acaso estejam no disco do Caetano nessa ordem que coloquei acima.

A primeira, do Noel, que julga, afirma e sabe!

A segunda, do Caetano, a meu ver, reage a esse saber absolutista e diz mais – a ilusão, ou de alguma forma a mentira, está é aí, na afirmação que generaliza, onde a verdade supostamente inteira ilude, mente.

Então, voltando à questão dos acadêmicos, achei interessante refletir um pouco sobre estes” saberes”que a meu ver não cabem num simples sim ou não.

Na peça de Sófocles, o sábio, Tirésias, é cego.

Na peça Oidipous, filho de Laios, Tirésias alem de cego, é uma mulher... certamente não por acaso.

E o saber do Édipo? Ele, ao que parece, de algum modo ou, a seu modo, sabia.

Ele ouviu o oráculo, fugiu de Corinto por isso, matou alguém na chegada a Tebas e não se deu conta... Tem os pés inchados e nunca se pergunta por isso, ou, nunca olha para eles!

Pelo contrário, se esconde arrogante e orgulhosa/mente atrás de um tipo de saber: - suas decifrações que o levaram a ser REI! Como abrir mão delas e enxergar os pés?

Voltando à Jocasta, ela mostra que sabe como?

- Seduzindo, dissimulando e ironizando... Tira o poder dos deuses dos oráculos, deprecia as predições. Não obedece Laios e entrega o filho vivo ao pastor – vinga-se da lógica fálica e opressora de Laios? Para falar do feminino Lacan nos ensina que há uma lógica para além do falo! Jocasta, nesse gesto, reage à arrogância fálica de Laios, como na letra de Caetano respondendo a Noel? Bom, mas a peça nos mostra que ela sucumbe a seu desejo e casa-se com Édipo. Tenta burlar a maldição herdada, essa impossibilidade imposta pelos deuses, e segue seu desejo sem lei. E por ele mente, dissimula, engana. Mas acaba impossibilitando-se pela própria morte.

Tirésias, o sábio, teme os efeitos desse seu saber, e, como sabe o que ele irá causar, luta contra essa verdade dolorosa e mortífera, se esquiva, tenta recuar, mas acaba pressionado, cumprindo seu destino de sábio.

Édipo precisou ficar cego como Tirésias para saber...

Estamos aí, diante dos riscos dessa guerra saber/não saber, onde parece que a camuflagem é uma defesa sempre presente nos sujeitos. E, voltando ao meu início, saber ou não saber, no sentido excludente desse ou, não é a questão que se impõe nessa nossa caminhada.

Então, tem algo de vida e morte no jogo do saber e do desejo...

Lacan vai nos falar de uma terceira força, alem da vida e da morte, como uma componente da maior importância nesse jogo da nossa existência:

- a paixão da ignorância!

E, tanto o saber como a verdade são mancos, são não todo, são mulher – como o sábio Teirésias em Oidipous, filho de Laios.

Há isso que manca, nos faz tropeçar, e, como já nos disseram os poetas, desacata a gente, é revelia!Tem uma pedra no meio do caminho, e dela jamais nos esqueceremos, apesar das nossas retinas fatigadas.

Enquanto a verdade, nos diz Lacan na Terceira, pode ser esquecida, o real insiste, retorna e pode nos derrubar. A tentativa de negá-lo tem conseqüências - Édipo nos

disse..

Tentar nomeá-lo também tem conseqüências - tanto a clínica quanto a vida nos mostra isso.

Ainda Lacan na Terceira: - “o real é o que não anda, é uma pedra no meio do caminho, é quem não cessa de se repetir para entravar essa marcha. O real não é o mundo. Não há nenhuma esperança de atingir o real pela representação.”

Quando Lacan nos fala desse operador lógico que é o objeto a, nos demonstra também os riscos das tentativas de nomear o inominável. A interpretação não é interpretação de sentido, mas jogo com o equívoco. É alusão. Alude a, verbo de predicação indireta... Não nomeia a, verbo de predicação direta! Ou seja, podemos contornar o real, suportá-lo, esbarrá-lo, contrariá-lo, mas nunca nomeá-lo ou esgotá-lo.

A ciência parece muitas vezes pretender isso, ou como nas palavras de Quinet tentar colonizá-lo. A psicofarmacologia atual se posiciona muitas vezes como quem tem remédio para todos os males. Édipo, cheio de orgulho pelas suas decifrações, não olhou para os próprios pés, que traziam a marca da maldição herdada, historia do pai real, inscrita no seu corpo. Como nos diz o poeta, aí está o nosso dom de iludir!Talvez seja mesmo mais fácil não saber , e temos exemplos muito atuais nessa nossa sociedade tão cheia de brilhos que ofuscam, cegam. O recente episódio do $ virtual nas bolsas americanas indo da opulência eufórica e poderosa ao furo fuleiro e rasteiro, é uma demonstração disso. Mais fácil, sedutor e cômodo num primeiro momento. Devastador e trágico na sua conseqüência.

Portanto, tanto na clínica quanto na vida, é importante ressaltar o quão fundamental é irmos além da decifração, e, podermos nos apropriar dessa herança compulsória e definidora da nossa humanidade.



Vera Valadares/2009´´´´´´´´´´´´´´´´